O conceito de convergência foi introduzido em diversos momentos do semestre passado. Uma das formas de entender essa disciplina é pensar que o primeiro semestre é a história da convergência entre comunicação e arte, entre as diversas mídias e linguagens que antecedem a linguagem digital e que o segundo semestre é o momento de entender as manifestações
contemporâneas que trazem novos problemas para essa história.
Por isso, é importante, nesse início de semestre, discutir como as idéias de convergência e de hibridismo não são suficientes para entender todos os aspectos das manifestações mais comtemporâneas, que caminham cada vez mais na direção de projetos em que a participação do usuário é mais importante que a mistura de linguagens. Um bom ponto-de-partida para isso é My boyfriend came back from the war, de Olia Liliana. O teórico russo Lev Manovich acredita que o melhor conceito para entendê-lo é o de montagem espacial, por causa do recurso a janelas simultâneas, que rompem a linearidade da leitura de maneira muito mais radical que nos sites mais tradicionais. Isso fica ainda mais claro quando a versão original é comparada ao remix em formato blog feito por abe linkoln. Tem algumas idéias sobre isso em 6 propostas para os próximos minutos, mas antes de discutir esse texto — o que, aliás, será feito mais pela navegação comentada dos exemplos que pela discussão conceitual propriamente dita — vale fazer uma breve apresentação do que está planejado para o semestre, que será organizado em torno de alguns conceitos que Manovich propõe em seu livro The language of New Media:
1. camadas -> Quando saiu a versão 4.0 do Adobe Photoshop, com a ferramenta que permite a sobreposição de camadas de imagem em um mesmo arquivo, o mundo da imgem digital mudou significativamente seus rumos. Atualmente, a maioria dos editores de imagem e alguns programas para criação em áudio (Vegas) e vídeo (AfterEffects) oferecem o recurso da sopreposição de camadas. Além disso, os programas para desenvolvimento de CD-ROM e sites geralmente são controlados por meio de ferramentas no estilo "timeline", que permitem a sopreposição de diversas camadas. Mesmo no HTML, é possível sobrepor elementos, por meio da tag
"M Is for Man, Music and Mozart," com música de Louis Andriessen, dirigido por Peter Greenaway (1991?)
http://www.egs.edu/faculty/greenaway/greenaway-sound-and-vision-2002.html
2. maleabilidade | programabilidade
- > Focusing, de Tamás Walicsky (CD-ROM)
http://www.manovich.net/TEXT/waliczky.html
-> Les Poupées, Nicolas Clauss
3. banco-de-dados -> Ambient Machines, Marc Lafia | Things Spoken, Agnes Hegedüs (CD-ROM artintact 5 | ZKM)
4. montagem espacial -> Flora Petrinsularis, Boissier (CD-ROM artintact 5 | ZKM)
5. ponto-de-vista fixo (fotografia, cinema) x ponto-de-vista variável (VRML / QTVR) --> Forced Entertainment (CD-ROM artintact 5 | ZKM)
As primeiras semanas do curso serão organizadas em torno destes conceitos, a partir do exame dos exemplos a eles relacionados.
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bônus tracks
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— DVDs recentes, como ChaiseMag, reline2
— coletâneas de Joerg Piringer e *//FAQ e também abordar o universo do
— videoblogs
(http://www.nucc.pucsp.br/7Emarcusbastos/mbastos_log/archives/001127.html
e
http://www.nucc.pucsp.br/~marcusbastos/mbastos_log/archives/001152.html)
30 milhões de blogs
Em matéria na edição de 1º de junho de 2005, a revista Veja descreve como os blogs se consolidaram como uma ferramenta que permite aos usuários sem conhecimento de programação construir sites na internet. O sucesso dos blogs, que já são em número de 30 milhões, é cada vez maior. Ainda segundo a Veja, nos Estados Unidos, por exemplo, a quantidade de blogs publicados cresceu 58% entre 2003 e 2004; no Brasil, 7 milhões de internautas visitaram blogs no mês abril de 2005. No olho da matéria, o repórter Marcelo Marthe afirma que "os diários virtuais não são só para adolescentes. Sua influência já vai da política aos negócios". Na mensagem que abre o tema deste mês da -empyre-, Michael Arnold Mages indica o mesmo movimento de ampliação dos usos do blog, em leitura mais densa e menos estereotipada dos diários digitais: "como a herança da internet pode ser recuperada em seu uso como uma ferramenta de transmissão de texto, não surpreende que a textualidade ainda possa ser explorada, reposicionada e reapresentada compulsoriamente na rede. Como um dos memes mais recentes a infectar a cultura mainstream, o blog está subitamente se transformando em ferramente de negócios essencial, em força importante no desenvolvimento do jornalismo, e em nova ferramenta de conversa. Misturando os gêneros do documentário, do diário, da conversa pessoal, da lista de discussão, os artistas deste mês levam o weblog aos domínios da prática artística".
[As the heritage of the Internet itself can be traced back to its use as a text-transmission device, it is unsurprising that textuality can still be explored, re-positioned and re-presented in compelling ways through the medium of the Internet. As one of the most recent memes to infect mainstream culture, the blog is suddenly an essential business tool, an important force in the ongoing development of journalism, and a new conversational network. Mixing the genres of the documentary, the journal, the personal conversation, the usenet discussion board, this month's artists bring the weblog into the realm of artistic practice in the network.]
É preciso ficar atento para a definição de blog proposta por Arnold Mages, quando este explica o blog como uma ferramenta de transmissão de texto. Não seria mais correto definir o blog como uma ferramento de transmissão de dados? A grande quantidade de fotologs publicados e o número crescente de videoblogs parece reforçar essa hipótese. De fato, essa discussão pode ser levada mais longe no âmbito de uma reflexão sobre a organização numérica da linguagem digital, o que implica na não separação entre palavra, imagem e som na memória do computador — que processa tudo como seqüências de "zeros" e "uns". Não obstante, as interfaces necessárias para que os usuários acessem esse conteúdo organiza os números em blocos que vão progressivamente se afastando desse caráter binário e se aproximando de formas culturamente estabelecidas de representação. O blog está próximo do diário. Este já é um formato complexo, que não pode ser tratado de maneira simplista, como indica o exemplo clássico de O Diário de Anne Frank e outros discutidos em matéria recente da Folha de S. Paulo sobre O Diário de Nina.
Para não desviar do tema proposto e, não obstante, tentar inserí-lo em um contexto mais amplo que o da mera identificação de uma tendência tecnológica, proponho, antes de responder sobre a existência ou não de transgressões nos videoblogues: (1) recuperar o conceito de transgressão, e entendê-lo em três vertentes, uma comportamental, outra semiótica e outra política, conforme será desenvolvido em seguida; (2) discutir o significado dos blogs na cultura digital, tentando relativizar sua relação com uma suposta cultura de transmissão de texto e de natureza jornalística.
O conceito de transgressão
O conceito de transgressão é ambivalente, e a própria idéia de ambivalência está ligada à trama de proibição e permissividade em que a transgressão envolve-se. Há dois entendimentos principais de 'trangressão', um deles mais ligado à esfera dos comportamentos socialmente aceitáveis ou reprováveis e outro mais ligado aos usos mais ou menos convencionais da linguagem. Em ambos os casos, a trangressão está ligada ao desvio, à ruptura com expectativas prévias. Só há trangressão quando há um deslocamento para territórios inesperados, que tangenciam o proibido. Segundo Antonio Risério, Paulo Leminski é um bom exemplo de escritor que aproxima as trangressões semióticas e comportamentais, conforme desenvolvido no artigo Leminski e as vanguardas.
A transgressão comportamental está na esfera das ações que — segundo o escritor francês Georges Bataille — não negam o tabu mas o transcendem e o completam. (Cf. Bataille, Georges. "Trangression". In: Erotism. Death and Sensuality. San Francisco: City Lights Books, 1986. p. 63). O tabu, nesse contexto, é muitas vezes entendido como uma forma primitiva da lei. No entanto, é preciso lembrar que as apropriações que a psicanálise faz de conceitos culturais e históricos são alvo periódico de polêmica, por serem consideradas muitas vezes demasiadamente genéricas. Sem entrar no mérito desse debate — recentemente reavivado no contexto das tentativas recorrentes que Slavoj Zizek tem feito de aproximar marxismo e psicanálise —, é possível sustentar que o Tabu é uma narrativa mítica que regula as formas de relacionamento socialmente razoáveis. Essa compreensão do Tabu é suficiente para os fins da discussão proposta. Conforme demonstrado por Freud em Totem e Tabu, este último põe em relevo "uma necessária função que a religião cumpre ao consolidar a construção propriamente humana, a cultura" (Cf. Xavier de Menezes, José Euclimar. "Culpa: instrumento mnemônico". In: Fábrica de Deuses. A Teoria Freudiana da Cultura. São Paulo: Unimarco, 2000). Nesse contexto, transgredir é desviar em direção ao que a cultura não aceita como norma, àquilo que os homens proibem justamente por sabê-lo demasiadamente humano. Um exemplo é Flora Petrinsularis, de Jean-Louis Boissier. O trabalho é pertinente para a discussão que aqui se inicia por dois motivos: (1) foi inspirado nos diários do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, e como veremos adiante uma das formas de entender o blog é como um diário digital; (2) vários dos temas tratados no trabalho estão próximos da literatura libertina do século XVII, de que Sade e Restife de La Bretonne são exemplos radicais, considerados trangressores pela capacidade de expandir indefinidamente os limites do proibido no âmbito do comportamento sexual.
exemplo 1
CD-ROM Flora Petrinsularis
trecho de artigo 1
Boissier, Jean-Louis. "Two ways of book making. Working notes on Flora Petrinsularis". p. 73
Uma questão que surge, após a observação deste exemplo é sobre a natureza do blog, assim como sua relação com os diários, presentes na história da literatura dos tempos de Rousseau até os exemplos recentes dos diários de Jack Keroauc e de Journals, de Anais Nïn. Aliás, um dos textos que será citado adiante, Desobediência Civil, foi composto, assim como o clássico Walden, a partir de notas inicialmente agrupadas no diário de seu autor, Henri David Thoureau.
Aprofundando questões discutidos por Sigmund Freud em suas analises da religião como 'produção anímica multivalente', Bataille defende que "não existe proibição que não possa ser transgredida. Frequentemente, a transgressão é permitida, frequentemente é mesmo prescrita" (Cf. Bataille, Georges. "Trangression". In: Erotism. Death and Sensuality. San Francisco: City Lights Books, 1986. p. 63). Um exemplo é o estado de desordem generalizado que sucede a morte do soberano, ritual de sofrimento sublimado sem o qual a comunidade seria incapaz de continuar vivendo na falta do líder morto, conforme descrição que Bataille atribui aCaillois, em L´homme et le sacré.
A trangressão de linguagem acontece no domínio do que Chlovski chamou de estranhamento. Em A estratégia dos signos, Lucrécia D´Alessio Ferrara explica como a "teoria de Chklóvski que se apóia na ação de estranhar o objeto representado procura transpor o universo para uma esfera de novas percepções que se opõe ao pesa da rotina, do hábito, do já visto." Nesse contexto, continua a autora, o "produto difuso, oblíquo, é um obstáculo à comunicação, é uma contracomunicação que se torna mais difícil e, por isso mesmo, mais fértil a percepção que o receptor passa a ter do universo". Ao passo que a transgressão conforme definida pela psicanálise implica em um desvio semântico, o estranhamento é antes uma operação sintática. Por isso, afirma Ferrara, "antes de preocupar-se com o receptor, Chklóvski estará preocupando-se com a natureza do ato criativo como aquele modo de formar capaz de inibir a atrofia mental e impedir as percepções automáticas e automatizantes." (Cf. Ferrara, Lucrécia D´Alessio. A estratégia dos signos. São Paulo: Perspectiva, 1981. pp. 33-5)
Um exemplo seria screenful.net, de abe@linkoln e jimpunk. É um blog que foge do formato tradicional, incorporando recursos de net art na construção de um diário experimental que tem de remixes conceituais a trechos de áudio, passando por um livro eletrônico e troca de mensagens em formatos próximos a das listas de discussão. Um aspecto importante dos experimentos que abe linkoln e jimpunk compartilham é o uso de recursos de programação, muitas vezes incorporando elementos cinéticos à interface web. Não se tratam de vídeos propriamente dito, mas permitem uma discussão que pode ser relevante para o tópico desta noite: O que é a linguagem do vídeo na web? Será que o vídeo na internet se restringe apenas às janelas que abrem arquivos em formato .AVI ou .MOV? Não seria este momento extremamente deficiente em relação ao vídeo conforme constituído até então? Em sendo, não seria mais relevante explorar formas como as desenvolvidas por abe linkoln e jim punk, em que não há relação imediata com a cultura audiovisual e sim a tentativa de traduzir o vídeo nos termos da internet? Alguns exemplos são Nu descendant un escalier (in La Boite... V1- Rem:x 2004 ) [05-Dec-2004 05:04 AM], Le Grand verre / large glass ___rem:x #1 [22-Dec-2004 04:59 AM] e a performance magnum i.p.
A interface do screenfull.net é completa diferente do padrão comum em sites populares como o Blogger e mesmo em publicadores de código aberto, como Movable Type e Wikki. É mantido o conceito de posts, mas a lista aparece na interface em meio a fundos que mudam com certa regularidade e diretórios que o usuário só descobre navegando bastante pelo Blog ou por meio de listas de discussão especializadas e comunidades específicas de arte digital. Em alguns dos exemplos reunidos na série dedicada a Marcel Duchamp, (Le boite em Valise), os vídeos — apesar de aparecer em formatos típicos do vídeo digital — são precários e bastante breves. Em sua maioria, são pequenos loops que funcionam como elementos de um contexto maior, antes que vídeos que se esgotam por si próprio. Isso responde a um problema dos videoblogues, que é a facilidade relativa de acesso a formatos sofisticados de vídeo na internet, apesar do número crescente de usuários com recursos de banda larga. A título de ilustração, vale a pena navegar por
AnémiC:nema P4rt 1 - (popup de precis:on) rot0Relief N°1 07-Dec-2004 02:07 AM
http://www.screenfull.net/stadium/2004/12/an1.html
2004-12-02 fountain (linkoln's 04 screenfull mix)
http://www.screenfull.net/stadium/2004/12/fountain-linkolns-04-screenfull-mix.html
Re : À bruit secret -(Ready made assisté) film Ready made rectifié 05-Dec-2004 07:34 AM)
http://www.screenfull.net/stadium/2004/12/re.html
http://www.screenfull.net/stadium/2004/12/nude-descending-staircase-abe-linkolns.html
( -- formato .JPG)
2004-12-07 linkoln and jimpunk quit remixing duchamp to go play yahoo chess
http://www.screenfull.net/stadium/2004/12/linkoln-and-jimpunk-quit-remixing.html
Além disso, seria possível pensar um terceiro tipo de transgressão, de fundo político. Para isso, é necessário um exercício curioso, que leva de volta a um escritor norte-americano notoriamente amante da natureza que, segundo José Paulo Paes, cultivava uma "irônica descrença em relação às utopias tecnológicas". Trata-se de Henri David Thoureau, cujo conceito de desobediência civil propõe práticas sistemáticas de desvio consciente das normas vigentes, o que o aproxima do tema discutido hoje. Seu pensamento não se restringiu aos livro, o que o levou à prisão por se negar a pagar seus impostos, alegando que o dinheiro estava sendo usado pelo governo dos Estados Unidos para financiar um regime escravagista e em guerra com o México com o qual ele não concordava. Esse episódio o leva à redação do famoso ensaio Desobediência Civil, em que afirma que leis injustas existem e pergunta: "devemos contentar-nos em obedecer-lhes ou empenhar-nos em corrigi-las; obecer-lhes até o momento em que tenhamos êxito ou transgredi-las desde logo?. Em governos como o nosso, os homens, de modo geral, pensam que devem esperar até o instante em que tenham logrado persuadir a maioria a alterá-las. Pensam que, se lhes resistissem, o remédio seria pior que o mal. Mas é culpa do próprio governo o remédio ser pior que o mal. Ele o torna pior. Por que não se mostra mais apto no antecipar e aplicar reformas? Por que não trata com carinho sua judiciosa minoria? Por que não protesta e resiste antes de ser ferido? Por que não encoraja seus cidadãos a alertamente lhes apontarem as faltas e a procederem melhor do que eles lhe ordena? Por que sempre crucifica Cristo, excomunga Copérnico e Lutero e declara Washington e Franklin rebeldes?" Nesse caso, a trangressão acontece pelo desejo explícito de modificar as normas, diante de leis que regulamentam comportamentos conduzidos por políticos muitas vezes em desacordo com a consciência dos eleitores que os escolheram como representantes.
No limite, seria possível dizer que o grau máximo de transgressão só é possível em momentos muito específicos, em que há tanto um contexto favorável como um desejo de ruptura potente e pronto a agir. Aqui, não é possível entender contexto favorável apenas num sentido positivo. Um exemplo é Lenin, que está bastante em voga por conta da recente publicação do livro de Zizek Às portas da revolução. Escritos de Lênin de 1917. [ver resenhas em http://revistacult.uol.com.br/cult_90_mat1.htm e http://www.boitempo.com/resenhas/portas%20da%20revolucao.htm]. Ele lidera um movimento de trangressão política, a Revolução Russa, após um período de reclusão causado pela possibiliade imininente da Primeira Guera Mundial, e também pela capacidade de mobilizar o desejo de mudança do povo russo.
CMI -- vídeos e documentários
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/static/video.shtml
Media Sana
http://www.mediasana.org/
Possivelmente, o poeta e cineasta italiano Pier Paolo Passolini é um dos artistas recentes capazes de conciliar de maneira mais eloquentes os três tipos de transgressão propostos descritos acima. Dos clássicos neo-realistas dos anos 50 e 60, que descrevem de maneira crítica a dura realidade italiana do pós-guerra — é o caso de Mamma Roma — e à ambiciosa trilogia da vida já no final da carreira — Sodoma e Gomoora, Decameron e Contos de Cantenbury —, Passolini faz um cinema ao mesmo tempo poético e político, passeando entre a crítica social e a crítica de comportamento. Talvez Teorema seja o filme síntese dessa articulação entre formas que desviam da norma, na medida em que o filme consegue estabelecer um elo (ainda que arbitrário) entre a macro e a micro-política e, ao fazê-lo, inventa momentos cinematograficamente contudentes, de que a cena da mulher que se enterra para chorar a ausência do amado é a mais representativa.
Mídias Digitais e Transgressão
Não é de hoje que a internet é usada como instrumento de questionamento do noticiário político ou para a divulgação ágil de informações sobre áreas de difícil acesso - por exemplo, em situações de censura à imprensa oficial ou de calamidades naturais que interrompem outras formas de comunicação, como foi o caso do recente tsunami asiático. Um caso notório aconteceu por ocasião da queda da ex-União Soviética, quando as BBSs locais atuaram como as principais fontes da imprensa ocidental, já que os meios de comunicação oficial não estavam autorizados a divulgar a falência do sistema comunista, conforme descrito em O Manual da Internet, de Tracey LaQuey e Jeanne C. Ryder (São Paulo: Campus, 1992). Assim, um primeiro ponto a ser observado é o de que o blog não é a única forma digital que possibilita formas alternativas de circular informações que as grandes coorporações da mídia, pelos mais diversos motivos, não tornariam pública.
O fenômeno dos blogs difere dos exemplos citados no parágrafo anterior por permitir o uso da rede sem que seja necessário aprender a programar ou contratar alguém para fazê-lo. Além disso, ele devolve o termo jornalismo o sentido original, muitas vezes esquecido, de manutenção de um 'journal', de um diário. Mas todos as manifestações da cultura digital estão inseridas numa trajetória de descentralização do controle sobre o trânsito de informações que é alvo de disputas (inclusive jurídicas), pelo menos desde quando o Napster se mostrou capaz de ameaçar seriamente uma indústria fonográfica até então confortavelmente ancorada num sistema de produção e distribuição em que ínfimos contratados de grandes gravadoras e poucos aventureiros independentes disputavam os corações e ouvidos de um público que tinha nas revistas especializadas, no circuito de shows, nas estações de rádio e em programas ou canais específicos de televisão o único meio de se informar sobre o que poderia girar em seus tocadores de CD.
Assim — e já caminhando para o tema central deste texto—, é possível dizer que a internet subverte a lógica da cultura das mídias vigente dos anos 80 em diante, com a popularização do videocassete, da TV a cabo e de outros mecanismos de consumo de produtos culturais cuja lógica é diferente daquela da cultura de massas clássica, em que uma quantidade muito pequena de empresas controlam a produção e a distribuição de um conteúdo que, apesar de atingir audiências bastante grandes, não comtempla segmentos que, ainda representativos em termos de quantidade, mostram-se muito mais espefícos quanto a seus hábitos e preferências culturais.
[Para uma discussão mais extensa sobre essa passagem da cultura de massas para a cultura das mídias, e desta para a cultura digital, ver os livros Cultura das Mídias (2 ed. revisada e ampliada. São Paulo: Experimento, 1996) e Cultura e Artes do Pós-humano (São Paulo: Paulus, 2003), ambos de Lúcia Santaella .]
[Para uma discussão sobre os tipos de leitores que surgem no contexto dessas eras culturais, ver o livro Navegar no Ciberespaço, de Lúcia Santaella (São Paulo: Paulus, 2005). É possível pensar, também, em três formas de participação do público análogas aos três tipos de leitores propostos por Santaella em seu texto. Na cultura de massas, a participação seria predominantemente passiva; na cultura das mídias, a participação seria principalmente seletiva; na cultura digital, a participação seria potencialmente qualitativa.]
É possível dizer, portanto, que as mídias digitais estimulam a transgressão da lógica vigente na indústria do entretenimento. Vale lembrar, porém, que mídias como o rádio e a televisão também demonstraram grande potencial dialógico não realizado. Em "A estética da comunicação e o sublime tecnológico", Annateresa Fabris lembrar como Brecht sonhou com um rádio que "poderia ser para a vida pública o meio de comunicação mais grandioso que se possa imaginar, um extraordinário sistema de canais, isto é, poderia sê-lo se tivesse condições não só de transmitir, mas também de receber, não só de fazer escutar algo ao ouvinte, mas também de fazê-lo falar, não de isolá-lo, mas de colocá-lo em relaação com outros". (Cf. Costa, Mario. O sublime tecnológico. São Paulo: Experimento, 1995. p. 8). Em livro homônimo, Artur Matuck discute o potencial dialógica da televisão. (Cf. Matuck, Artur. O potencial dialógico da televisão. São Paulo: Annablume, 2000).
Por isso, é importante discutir como, apesar da infra-estrutura técnica que permite uma participação mais ativa de um público que possivelmente não pode mais ser tratado por audiência, contraditoriamente a Internet surge num momento de grande homogeneidade cultural. A consolidação de políticas culturais que garantem a diversidade não é o resultado óbvio e inevitável da evidente multiplicação de diferenças, e dos efeitos inegavelmente democráticos que esse processo produz, já que o mercado absorve o diferente como mais um nicho a ser explorado. Um debate mais extenso sobre o tema tem sido travado no contexto das críticas às teorias multiculturalistas e ao chamado pensamento pós-moderno. Um dos autores representativos dessa discussão é Slavoj Zizek, em textos como "Multiculturalismo ou a lógica cultural do capitalismo multinacional". (Cf. Dunker, Christian e José Luiz Aidar Prado [orgs.] Zizek Crítico. Política e Psicanálise na Era do Multiculturalismo. São Paulo: Hacker, 2005). Assim, responder se há transgressão nos videoblogues implica em pensar, num contexto mais amplo, sobre quais (e como) os mecanismos de linguagem que podem desempenhar um papel contestador, num contexto em que as mídias digitais parecem estimular um debate tenso sobre novas formas de circulação e socialização do saber.
Em todo o caso, vale observar que os sistemas de compartilhamento de arquivo tem sido responsáveis por dinâmicas de comunicação razoavelmente descentralizadas, tendo em vista o acesso cada vez maior à Internet mundo afora. No contexto da discussão proposta, vale recuperar o conceito de 'broadcacthing', que ironiza o sistema de transmissão um para vários das grandes redes de televisão. Na definição da Wikipedia, o termo Broadcatch, criado por por Fen Labalme em 1983 (http://www.broadcatch.com/definition.shtml) e usado por Stewart Brand no livro The Media Lab (MIT Press, 1987), é definido como segue:
"Broadcatch connotes a many to one gathering of information, using a network of personalized agents to ideally sift through all available information and return just that which is of possible current interest from trusted, authenticatable sources and in a form and style amenable to the user." (http://en.wikipedia.org/wiki/Broadcatching)
tks to:
Rick Silva (http://www.cuechamp.com)
-empyre- (http://www.subtle.net/empyre)
Esse post funciona como roteiro para a oficina ex-Crever? Teoria e Prática da Literatura Experimental, oferecida pelo curso de Comunicação e Multimeios da PUC-S. A proposta para o semestre é apresentar trabalhos de literatura experimental que desafiam os limites da cultura impressa. A primeira etapa é conhecer alguns autores que tem um papel histórico no engendramento de uma escrita não-linear, que mistura diversos registros de linguagem (palavra e imagem, palavra e som, etc). Para isso, será necessário discutir a relação entre os diferentes tipos de escrita com suas formas de mediação, assim como sua relação com a história das mídias, por meio de exemplos das diversas vertentes contemporâneas de literatura experimental.
10.08.2005 > A poesia concreta
- exibição do vídeo "Poetas de Campos e Espaços", de Cristina Fonseca (dur. 56 min.)
- leitura e discussão do plano piloto para a poesia concreta
- apresentação e discussão de exemplos
A certeza da influência. Augusto, Haroldo e Décio avaliam o movimento da Poesia Concreta
http://www.secrel.com.br/jpoesia/har08.html
Arte concreta paulista
http://www.arteconcretapaulista.com.br/flash/home.swf
Entrevista com Augusto de Campos
http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/acampos.htm
Leminski e as vanguardas, de António Risério
http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/kamiquase/ensaio5.htm
Lenora de Barros e João Bandeira falam da exposição Noigandres
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/1355,1.shl
Verbete no Panorama de Poesia do ItaúCultural
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/poesia/index.cfm?fuseaction=detalhe&cd_verbete=3926
Levantamento Bibliográfico
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